quinta-feira, 15 de maio de 2014

CONFLITOS NA ESCOLA: UM ESPELHO DA SOCIEDADE




Conflitos na escola: Um Espelho da Sociedade

Entrevista com Cynthia Castiel Menda, publicada na edição 444, março de 2014.

Cynthia Castiel Mendapsicóloga escolar e clínica, mestre em Educação, professora convidada na Faccat e tutora em EAD na UFRGS, Porto Alegre, RS.

Quanto mais violentas são nossas relações sociais, mais violentas podem se tornar as relações no interior das escolas. Nessa lógica, se promovermos a cultura de paz, as relações podem mudar. Dedicamos nossa entrevista para contribuir com a reflexão sobre a superação dos conflitos nas escolas. É tarefa de todos nós buscar alternativas coletivas, novos jeitos de pensar a escola, dividindo responsabilidades entre professores, pais, alunos e comunidade, sem fechar os olhos para as situações de conflitos. Sobre isso, ouvimos a psicóloga clínica e escolar Cynthia Castiel Menda que trabalha na Universidade Federal de Rio Grande (FURG), na Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis.

Quais são as principais causas de conflitos na escola?
De forma geral, a escola reproduz a sociedade e, portanto, os conflitos existentes na comunidade dos estudantes são reproduzidos dentro da escola. Mas todos dizem respeito à questão do relacionamento interpessoal. É difícil lidar com o outro, entender o outro, se colocar no lugar do outro se tenho uma educação (familiar e escolar) voltada para o eu (eu que tenho que me dar bem, eu tenho que ser do melhor que os outros), em que a competitividade é estimulada e recompensada. A própria situação social e de motivação dos professores, na maioria das escolas, gera conflitos entre estudantes e professores porque há um estranhamento das características de cada um deles e uma dificuldade de superar as barreiras para uma comunicação eficaz e eficiente. Diria, em resumo, que a escola rompeu o diálogo e o entendimento com a sua comunidade, por vários fatores externos, inclusive econômicos, políticos e sociais.

São diferenças não assimiladas?
De forma específica, continuamos encontrando na escola os conflitos de classe social e de gênero. Assim, se um estudante tem muito menos ou muito mais idade do que os outros de sua sala de aula, ou se o adolescente demonstra uma tendência homoafetiva, tende a gerar conflitos no seu meio, por exemplo. É necessário estar atento à questão do estabelecimento de grupos com identidade própria fora da escola, que em algumas cidades atualmente são chamados de bondes. Porque estes também podem fomentar conflitos dentro da escola, ou pelas diferenças entre os grupos, ou pelo desejo de as pessoas entrarem em (ou saírem de) um determinado grupo, o que não é bem visto. Por último, podemos citar a questão da violência e das drogas em várias comunidades.

Então os conflitos na escola espelham os conflitos da sociedade?
Com certeza. Não só espelham os conflitos, como mostram nossa inabilidade educativa até o presente momento para a resolução desses conflitos. Pois é uma das funções da escola fomentar o conhecimento social, a elaboração e o respeito às regras, a educação para a paz. Estamos nos preocupando muito com os aspectos cognitivos da formação da pessoa e pouco com os sociais. Temos que lembrar que a escola é uma das primeiras instituições na qual a criança convive fora da sua família e é onde deve aprender aspectos positivos dessa convivência e como resolver os conflitos inerentes a ela. Ao ver, por exemplo, os casos de estudantes americanos que voltam para suas escolas depois de anos para cometer assassinatos em função da vivência traumática que tiveram nesta escola, em que na totalidade dos relatos foram vítimas de violência psicológica e física, é um alerta inequívoco de que a educação falhou. Aqui no Brasil, quando vemos uma escola ser destruída pela comunidade onde está inserida, temos a noção do quanto a educação formal falhou. Quando a escola funciona como palco para o duelo entre grupos de traficantes de drogas, temos que ter a exata noção de que falhamos enquanto educadores e que nossa educação precisa mudar para que a sociedade mude. Os adultos da nossa sociedade são resultados diretos da educação familiar e escolar. Se a educação familiar falha e a escolar também, neste aspecto social, não há como ter um futuro com mais esperança.

E os conflitos de gerações?
A mídia enfatiza muito os conflitos entre gerações. São professores, direção e/ou pais versus crianças e adolescentes. Aqui podemos citar as estratégias de controle como causa principal desses conflitos. Por exemplo, colocar câmeras de vigilância na escola, porta com detectores de metal e chips para controle de entrada e saída dos estudantes ou a própria conduta dos adultos frente à falta de limites dos estudantes. Daí podem surgir tiroteios nas portas da escola, depredação das estruturas, movimentos reivindicatórios dos estudantes e/ou pais e o abandono da escola pelos estudantes. Há também os conflitos entre os próprios estudantes. Estes têm uma conotação de violência psicológica mais frequente do que violência física. Os casos de bullying têm se tornado quase que uma epidemia nas escolas brasileiras, independentemente do tipo ou local em que a escola se encontra. E esses conflitos têm uma consequência mais grave na formação dos jovens e tendem a continuar repercutindo na vida dessas pessoas por longo tempo e em vários aspectos da vida, como social, profissional e emocional.

Quais são os papéis da família, escola, professores e alunos na mediação dos conflitos?
Em primeiro lugar, a consciência de que todos são escola e que, portanto, se existe um conflito, eu também faço parte dele e tenho que auxiliar na sua resolução. Infelizmente, nossa educação até hoje tem privilegiado a fuga dos conflitos, não o seu enfrentamento. Então ficamos com um monte de conflitos pequenos sem solução que vão se acumulando até que viram quase insolúveis. Em segundo lugar, é fundamental estar aberto ao diálogo, ouvir todas as partes que fazem parte do conflito. Dialogar com imparcialidade e tentar encontrar as estratégias adequadas para aquele conflito. Não trazer os preconceitos para o conflito, pois não é porque um estudante costuma iniciar as confusões que ele sempre vai ser responsabilizado por elas. Naquele dia pode não ter sido ele e, se não ouvir atentamente, pode-se cometer uma injustiça. As injustiças trazem revolta e anulam qualquer tentativa de diálogo. Diria que o senso de adequação também é importante, pois é necessário perceber até que ponto se está envolvido neste conflito apresentado, diretamente ou indiretamente. Muitas vezes o conflito aumenta porque um pai que não está diretamente envolvido toma para si o problema e começa a incitar outros pais, que nem sabem do contexto, a tomar partido. Assim também pode acontecer com professores ou com estudantes. Portanto o papel de cada um no conflito não é estanque, nem vitalício; depende do contexto em que o conflito acontece e quem está envolvido nele. Pode acontecer de num momento ser mediador, no seguinte ser apaziguador e no seguinte ser um dos envolvidos no conflito. O que não pode variar é a postura de diálogo, de imparcialidade e de apoio à resolução do conflito com menos danos possíveis para as partes envolvidas.

A falta de motivação de alunos e professores é prejudicial?
A falta de motivação traz um alerta, pois pessoas que estão numa instituição que não querem estar, por diferentes motivos, tendem a criar conflitos. Se for necessário passar quatro, seis ou oito horas num local, o ideal é que ele traga uma satisfação, um ganho para a pessoa. Se estiver lá obrigado, só vivenciando conflitos em todas as esferas, estes conflitos se retroalimentam com a minha falta de motivação. Então, a falta de motivação impossibilita que haja a mediação, pois, se não quero estar ali e não me importo com o que acontece, por que vou fazer força para mudar algo?

O conflito é algo necessariamente negativo?
O conflito, por definição, não é negativo; ele é da natureza humana. Somos diferentes e em contato com o outro mostramos estas diferenças. Mas na convivência social estabelecemos regras para equilibrar essas diferenças. O conflito é a sinalização da falta da regra nesse quesito específico, ou que a regra acordada não funciona mais e precisa de uma nova combinação. Então, o conflito é apenas uma divergência, natural, que precisa acontecer na convivência entre diferentes para que haja uma cultura de paz. Se o conflito for tratado dessa forma, em todos os níveis, seja conflito de ideias, de comportamentos, de classes sociais, se ensinamos, desde a Educação Infantil, que os conflitos têm solução e que é necessário empatia (colocar-se no lugar do outro) para resolvê-los, todo conflito passa a ser visto como positivo, como uma possibilidade de viver melhor com o outro, respeitando suas diferenças.

Estratégias para superar conflitos
É importante a escola buscar suas próprias ações e projetos, de acordo com sua realidade. Mas podemos sugerir alguns exemplos.
Pode-se começar fortalecendo o vínculo entre a comunidade e a escola. Quando os pais entendem e se comprometem com a filosofia da escola, fica mais fácil construir as regras de convivência e estabelecer limites e sanções para os estudantes. Uma das ações nesse sentido é a Escola de Pais, que promove encontros mensais ou bimestrais, trazendo assuntos de educação que interessem aos pais e propiciando que eles conversem sobre suas dificuldades com os filhos e troquem soluções possíveis, com a mediação de um profissional. Importante também é abrir a escola para a comunidade, inclusive nos fins de semana, proporcionando espaços de lazer e convivência, pois muitas comunidades não possuem outro espaço disponível.
Em relação aos professores e à equipe diretiva, capacitá-los para a mediação de conflitos. Existem cursos que ensinam como fazer e desenvolver a potencialidade como mediador. Acredito, como educadora, que todos os professores devem ser mediadores natos, pois lidam diretamente com o conflito nas salas de aulas desde o berçário. Os conflitos mudam em intensidade e consequência, mas sempre precisam da mediação do educador, e muitas vezes ele não está preparado para essa atividade.
Quanto aos estudantes, o principal é ter regras claras e objetivas que precisam ser seguidas por todos da instituição e que sejam lidas e discutidas com os estudantes, assim como o hábito, desde a Educação Infantil, de construir as regras do grupo ou o contrato pedagógico no início do ano. Ao lidar com um conflito entre estudantes, ser aberto ao diálogo e deixar de lado os preconceitos. Algumas escolas optam por tornar seus estudantes, principalmente adolescentes, também mediadores, oportunizando cursos de mediação.
As assembleias de estudantes e os conselhos de classe também podem ser instrumentos utilizados para este fim, abrindo espaço para a discussão de casos de conflitos e tentando a resolução com a escuta das diversas partes envolvidas.
Receita pronta, infelizmente, não existe. Cada instituição tem que encontrar o que melhor se adéqua para sua realidade. Mas é fundamental fazer algo, começar de alguma forma a repensar a educação, principalmente no seu aspecto social, para alcançar uma cultura de educação para a paz e ter na escola um espaço saudável de discussão de ideias e de respeito às diferenças.

Bibliografia: cyncamen@terra.com.br

De: Michelly Rodrigues Santana


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